Neila Cunha resgata história dos pais e de comunidade gaúcha

Em “O Caminho do Meio”, autora reúne memórias familiares, fotografias e depoimentos para preservara trajetória de Álvaro e Ondina e os vínculos de uma comunidade entre Porto Alegre e Viamão

A casa desapareceu, as árvores foram derrubadas e a paisagem já não era a mesma. Ao descobrir que a propriedade onde passou a infância havia sido destruída para dar lugar a um condomínio residencial, Neila Cunha encontrou um motivo decisivo para transformar as lembranças da família em livro.

O resultado é O Caminho do Meio: entre perdas, escolhas e recomeços, obra com produção editorial e gráfica da Marini Editora. Mais do que narrar a vida dos pais, Álvaro Santos da Cunha e Ondina Viana da Cunha, a autora recupera histórias de uma comunidade marcada pelo trabalho, pela solidariedade e pelos vínculos construídos entre gerações.

O projeto começou como uma biografia familiar, mas ganhou dimensão coletiva à medida que Neila reuniu recordações dos pais, lembranças das irmãs e depoimentos de antigos moradores do Caminho do Meio, localidade situada entre Porto Alegre e Viamão.

Lançamento em Porto Alegre

O livro O Caminho do Meio: entre perdas, escolhas e recomeços, de Neila Cunha, será lançado no dia 30 de outubro de 2026, às 18h30, no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), localizado na Rua Luiz Englert, 333, em Porto Alegre (RS), em frente ao Parque da Redenção. O acesso será pela entrada dos fundos.

O encontro será uma oportunidade de celebrar não apenas a publicação, mas também o legado de pessoas cujas experiências ajudam a contar a história de uma comunidade e merecem ser transmitidas às futuras gerações.

“Venha celebrar essa história de vida, de superação e de novos começos”, convida a autora.

A história que resistiu à transformação da paisagem

No preâmbulo, Neila conta que a ideia de escrever surgiu após um convite para participar de um projeto de biografias, coordenado por Luís Felipe Nascimento. Inicialmente, poderia contar a própria história, mas decidiu registrar a trajetória dos pais.

As lembranças familiares, transmitidas principalmente em conversas, ofereciam material para a narrativa. O impulso definitivo veio quando uma publicação nas redes sociais revelou que a antiga propriedade da família havia sido destruída.

A notícia trouxe de volta imagens da infância, como a escada de pedra de onde Neila contemplava a propriedade nas tardes de inverno. O lugar permanecia vivo em sua memória, embora já não existisse na paisagem.

A autora percebeu, então, que preservar a história dos pais significava também registrar um modo de vida que as transformações urbanas haviam modificado profundamente.

Duas perdas e uma história de amor

O livro acompanha a infância e a juventude de Álvaro e Ondina, cujas trajetórias foram marcadas por perdas familiares.

Nascido em 7 de junho de 1926, Álvaro cresceu em uma família de agricultores. Ainda menino, dividia o tempo entre os estudos e as atividades rurais. Canhoto, enfrentou dificuldades escolares depois de ser obrigado a aprender a escrever com a mão direita, prática comum naquele período.

Aos 15 anos, perdeu a mãe, episódio que deixou marcas profundas em sua vida.

Ondina nasceu em 11 de junho de 1929, em uma família numerosa. Gostava de estudar, mas teve acesso apenas aos primeiros anos da educação escolar oferecida na comunidade.

Em 1944, aos 15 anos, participou de seu primeiro baile. Foi naquela noite que conheceu Álvaro, então com 18 anos. Os dois dançaram juntos durante praticamente toda a festa.

Na manhã seguinte, porém, Ondina encontrou a mãe morta, vítima de um mal súbito cuja causa exata não foi esclarecida. A perda interrompeu o início daquele romance e mergulhou a família em um período de luto.

Um ano depois, os jovens voltaram a se encontrar nos bailes da comunidade e iniciaram o relacionamento.

A escolha de construir o próprio caminho

O namoro encontrou resistência na família de Álvaro. Seu pai desejava que ele se casasse com outra jovem, de condição social considerada mais adequada.

Álvaro decidiu contrariar a vontade paterna. Com o apoio do irmão Ramiro, procurou a família de Ondina e formalizou o pedido de namoro.

Os dois se casaram em 31 de março de 1949, em uma cerimônia simples, realizada na residência da família da noiva. O pai e a madrasta de Álvaro não compareceram.

Depois do casamento, o casal estabeleceu-se em uma propriedade de 34 hectares no Caminho do Meio, então pertencente ao município de Viamão.

Ali construíram a família e uma história que, décadas depois, seria lembrada não apenas pelas filhas, mas também por vizinhos, amigos e pessoas que conviveram com eles.

Uma comunidade construída pela convivência

O Caminho do Meio, que dá nome à obra, era conhecido como a continuação da Avenida Protásio Alves em direção a Viamão.

Na propriedade, Álvaro dedicava-se à produção de leite, ao cultivo da terra e à criação de animais. Ondina cuidava da casa, preparava alimentos, cultivava o jardim e produzia trabalhos de costura, tricô e crochê.

A rotina familiar acompanhava o ritmo da vida rural, mas a casa também se tornou um espaço de acolhimento.

Familiares, vizinhos, empregados, afilhados e amigos encontravam ali convivência e ajuda. A participação do casal na construção da Capela Santa Inês, ao lado de outros moradores, também revela a importância dos vínculos comunitários.

Ao reconstruir esse cotidiano, Neila recupera costumes, relações de vizinhança e formas de solidariedade que marcaram diferentes gerações.

A narrativa mostra como a história de uma família pode ajudar a compreender a transformação de um lugar e das pessoas que fizeram parte dele.

Fotografias e depoimentos preservam o passado

Além dos relatos, O Caminho do Meio reúne fotografias de diferentes períodos da vida familiar.

O acervo inclui imagens de Álvaro na infância e na juventude, retratos de Ondina e registros de outros integrantes da família. O material visual ajuda a situar os acontecimentos e aproxima o leitor das pessoas retratadas.

A publicação identifica a procedência das imagens e informa quando houve utilização de inteligência artificial generativa, como na representação de Ondina menina.

Os depoimentos de antigos moradores, filhos e netos também ampliam o alcance da narrativa. Ao ouvir outras pessoas, Neila encontrou lembranças que complementaram suas próprias recordações e revelaram a importância de seus pais para a comunidade.

Um legado no centenário de Álvaro

A escrita exigiu tempo e distanciamento emocional. No preâmbulo, Neila relata que precisou de 14 anos após a morte da mãe e dez anos após a morte do pai para encontrar serenidade suficiente para transformar a saudade em narrativa.

A publicação ganha significado especial em 2026, ano do centenário de nascimento de Álvaro Santos da Cunha.

Organizado em 11 capítulos, o livro acompanha a trajetória do casal desde a infância até o legado deixado às filhas e à comunidade.

Na parte final, Neila também assume o papel de personagem da própria história, recuperando episódios da infância e ensinamentos que permanecem presentes em sua vida.

A obra transforma, assim, uma experiência pessoal de perda em um registro que ultrapassa os limites da família. A propriedade desapareceu, mas as histórias vividas naquele lugar encontram uma nova forma de permanência.

Sobre a autora

Neila Cunha nasceu em Viamão (RS), em 1968, e viveu a infância e a adolescência no Caminho do Meio até os 19 anos.

É bacharel e mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutora em Administração pela Universidade de São Paulo (USP).

Atua como docente e pesquisadora do Departamento de Administração da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba, cidade onde reside desde 2009.

Em 2020, começou a escrever textos literários e publicou, na Revista Humanidades, da Universidade de Brasília (UnB), um relato sobre a experiência vivida durante a pandemia.

O Caminho do Meio: entre perdas, escolhas e recomeços é sua primeira obra literária.

Fala do editor

“Há histórias que precisam ser preservadas porque representam muito mais do que a trajetória de uma família. Neila Cunha transforma as lembranças de seus pais em um registro de valores, relações humanas e experiências que marcaram uma comunidade. Para a Marini Editora, participar desse projeto é contribuir para que essas memórias permaneçam acessíveis às próximas gerações.”

Wilson Marini
Editor da Marini Editora

Ficha técnica

Título: O Caminho do Meio: entre perdas, escolhas e recomeços
Autora: Neila Cunha
Ano: 2026
Páginas: 108
Formato: 14 × 21 cm
ISBN: 978-65-82071-01-0
Produção Editorial e Gráfica: Marini Editora
Direção Geral: Wilson Marini
Atendimento aos Autores: Julio Quixaba
Assistência de Produção: Beatriz Lumi
Registro Autoral: Artesam
Supervisão de Design: Cris Spezzaferro
Preparação de Design: Karine Akina Kogati
Revisão: Cláudio Amaral
Capa e Diagramação: Danielle V. Cardoso

Sobre a Marini Editora

A MARINI EDITORA transforma ideias em obras que geram manifestações de autoconhecimento, cultura e inspiração. Com atuação nacional, publica livros de autores iniciantes e experientes, valorizando projetos singulares em diversas áreas do saber.

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